segunda-feira, 27 de julho de 2009

HAMLET (II) DIREÇÃO DE ADERBAL FREIRE FILHO


MOURA FAZ O HAMLET DE SUA GERAÇÃO

Ator triunfa como o protagonista do texto-síntese do teatro em montagem antológica do diretor Aderbal Freire-Filho


Crítica: "Hamlet"


Wagner Moura lançou-se na empreitada iniciática de "fazer seu Hamlet" com a intenção que fosse apenas mais uma montagem. Falhou: é o Hamlet emblemático da sua geração.Espelho inesgotável, mas que reflete apenas o que se põe na sua frente, a obra-prima de Shakespeare, síntese do teatro, já teve o rosto compenetrado de Sérgio Cardoso, que assumia o papel de construir o moderno teatro brasileiro; e, em oposição, um Marcelo Drummond se estraçalhando como um camicase nos caóticos anos 90, na montagem do Oficina.Moura, Hamlet do milênio, tem pela frente um país que se reergue praticamente de ruínas, mas tendo aprendido importantes lições. Vestindo o personagem como uma armadura, consciente da batalha, Moura precisa primeiro exorcizar o fantasma da grandiloqüência com o humor adolescente que tanto o marcou.Não é pela melancolia, mas pelo deboche exasperado que ele rejeita a podridão de seu reino e ganha a platéia nos trocadilhos e na marcação frenética. Mas há método nessa loucura: quando é preciso, triunfa pela simplicidade, e inesquecíveis monólogos marcam sua entrada definitiva no mundo adulto.Com uma preciosa tradução dividida entre ele, Bárbara Harrington e o diretor Aderbal Freire-Filho, se faz compreender sem perder o frescor nem a beleza sonora. O "ser ou não ser" tem seu peso devido, ou seja, um devaneio entre parênteses, quando o mais importante está em suas considerações sobre o próprio teatro.Para isso, é preciso um diretor que ponha seu currículo inteiro em cena, como faz Freire-Filho. Não pode ser menos, com "Hamlet": tudo o que o diretor já fez soa como uma preparação para o que se vê aqui. No cenário, retoma com Fernando Mello da Costa a experiência do "Púcaro Búlgaro": coxias abertas, abarrotadas, com atores atentos, em contraste com o palco nu. Há o vídeo em cena, que esfriava "O Que Diz Molero", e que agora acompanha passo a passo o texto, desdobrando suas leituras com grande impacto visual.Rei ColetivoEm uma metalinguagem, o pai de Hamlet, rei destronado por um canastrão, é uma entidade coletiva, feita pelo elenco de apoio que se reveza na armadura: a verdadeira majestade é da trupe, não do indivíduo. Mas cada peça desse quebra-cabeças é precisamente ajustada.Tonico Pereira, com sua bonomia que remeteria mais a Polônio, faz um Cláudio extremamente simpático, e por isso perigoso. Humano em sua fraqueza, Pereira atinge a maturidade como ator encontrando a dor no centro do cômico.Georgiana Góes é uma adolescente que se estraçalha na dor, por sambas e frevos que parecem improvisados na hora, façanha de Rodrigo Amarante.Fábio Lago faz um Laertes transfigurado pelo ódio, que recobra a integridade no final. Já Gillray Coutinho aproveita tudo o que Polônio pode lhe oferecer, na sua técnica espantosa. Marcelo Flores e Cláudio Mendes, clowns meticulosos, sabem honrar seus solos, enquanto coveiros e atores. Carla Ribas tem grande dignidade como Gertrudes, mas fica um pouco deslocada quando o desvario triunfa. Caio Junqueira (Horácio) e Felipe Kouri completam um elenco no qual ninguém faz sombra a ninguém, e é a história que prevalece.Esse "Hamlet" é indispensável e antológico por sua essencialidade. Não busca ser original, mas eficiente, e faz um apelo contagiante pela própria grandeza do teatro. Na ratoeira de "Hamlet", o que fica preso é o coração da platéia, com os olhos abertos para se ver refletido nesse espelho infinito.


Por: Sérgio Salvia Coelho - Folha de São Paulo - 25/06/08
CRÍTICA 2 : WAGNER MOURA TEM ATUAÇÃO FASCINANTE EM HAMLET

Mais do que qualquer outro texto da dramaturgia universal, Hamlet propõe, em sua inesgotável possibilidade de análise e interpretação, múltiplas encenações que redimensionam a poética de Shakespeare. O jovem Hamlet, angustiado, cínico, cheio de dúvidas, arquiteto de uma vingança que se desconstrói na certeza da verdade, se transmuta a cada versão, levado a paroxismos de imagens e a espectros de matizes, sustentando-se na permanente consciência de que “nosso tempo (qualquer tempo) está fora do eixo”. É alguém que reflete a complexidade do ser humano, na exaltação dos sentimentos ou na miséria da existência.A montagem de Aderbal Freire-Filho, que estreou há uma semana no Teatro Faap e que deve vir ao Rio no início de 2009, não pretende inovar ou trazer qualquer provocação para a caminhada de Hamlet até o esgotamento da verdade e da certeza de que “o resto é silêncio”. Mas se mostra sintonizada com um certo impulso brasileiro para a representação, desbastando qualquer tom solene e lançando luminosidade por entre as frestas sombrias da tragédia. A começar pela tradução, de Wagner Moura, Bárbara Harrington e Aderbal, que encontra sonoridade “coloquial” sem perder o vigor poético e a fluência métrica. O palco se desvenda aos olhos da platéia, que, diante do cenário-coxia-bastidores de Fernando Melo e Costa e Rostand Albuquerque, pode assistir aos atores vestindo os figurinos de Marcelo Pires e captar a atuação por outro meio, a imagem dos atores em um telão. O jogo está a descoberto, as regras e o método estão expostos, como que para confirmar Shakespeare: “O teatro é um espelho da natureza”.Crônica do tempoO diretor reafirma o teatro como o artifício a que recorre Hamlet para apontar culpados e dar voz a seus fantasmas, confirmando que “os atores são a crônica de seu tempo”. As dúvidas, as hesitações, a vingança e o trágico cedem lugar à construção do teatro de um personagem. A aparente loucura de Hamlet nada mais é do que astúcia, e é na representação desse fingimento que essa versão se delineia. Hamlet é quase um bufão de própria tragédia, histriônica presença entre tantos atores de vidas canastronas, encenando o que precisa revelar. Nesta montagem, até certo ponto “solar”, Aderbal se debruça nas entranhas do teatro para trazer um Hamlet revivido na integridade poética e no vigor humano.O elenco parece afinado mais na composição de um quadro do que na individuação do detalhe. Wagner projeta, como um malabarista de palavras e gestos, a dor do filho que tem o pai assassinado, revestindo a procura do culpado em interpretação astuciosa até a revelação, com uma força interpretativa em que a ironia e a manemolência se combinam para fazer de Hamlet menos melancólico e mais carnal. Uma interpretação rica e fascinante. Tonico Pereira é um Cláudio debochado, numa perspectiva desfocada da realeza culpada. Fábio Lago (Laertes) demonstra bem a “virada” final do personagem. Gillray Coutinho uma vez mais prova, como um Polônio nada previsível, a alta qualidade de ator. Carla Ribas (Gertrudes), Georgiana Góes (Ofélia), Cláudio Mendes (Guildenstern), Marcelo Flores (Rosencrantz), Felipe Koury (Bernardo) e Caio Junqueira (Horácio) reconfirmam, com passionalidade, a perenidade de um texto sempre renovável. A atual é atraente na devoção ao teatro.
Por: Macksen Luiz - Jornal do Brasil - 27/06/08




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